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Entrevista Especial: Chieko Aoki

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Conhecida como a dama da hotelaria, a Sra. Chieko Aoki, fundadora da Blue Tree Hotels, falou com exclusividade para a Revista Ornatus sobre a presença da mulher no mercado de trabalho, os desafios do empreendedorismo e o empoderamento feminino.

 

Revista Ornatus - Como nasceu a sua vontade de empreender? Você considera que essa seja uma capacidade nata das pessoas ou todos podemos ser empreendedores?

Sra. Chieko Aoki - Minha vontade de empreender nasceu da percepção de que havia muita oportunidade a ser explorada no mercado hoteleiro brasileiro, inclusive novos estilos de hotel a serem explorados. Na ocasião, esse nicho era bastante tímido e tradicional. A hotelaria precisava melhorar e se modernizar.

Acredito que todas as pessoas têm potencial para se tornar empreendedoras, da mesma forma que todos têm vontades e sonhos. Porém, algumas pessoas preferem atividades mais estáveis, não arriscar tanto ou sonhar pequeno. Acredito que a escolha não depende do DNA, mas do ambiente cultural e das crenças dos meios familiar e social.

 

R.O. - O ambiente de negócios em geral sempre foi dominado pelos homens. Você encontrou muitos obstáculos no caminho?

C.A. - Quando comecei a Blue Tree Hotels, o ambiente era bastante masculino, porém eu me sentia muito motivada. Via que não havia nada que me impedisse ou dificultasse a atuação minha e de outras mulheres, nada que nos impedisse de fazer bem o trabalho que era feito só por homens. Notei, ainda, que muitas das atividades poderiam ser igualmente bem realizadas por mulheres, como a gerência geral, pois acredito que as mulheres sabem lidar bem com as pessoas – um dos pilares mais importantes da hotelaria. Foi assim que, aos poucos, algumas funções foram ocupadas por mulheres, pela seleção de competência e habilidades. Ao mesmo tempo, sou muito grata aos homens da hotelaria que sempre me apoiaram e orientaram em atividades nas quais eu precisei de ajuda. Acredito que obstáculos podem ser superados ou solucionados quando há união e laços entre as pessoas, porque ideias diferentes sempre despertam novas perspectivas e agregam valor.

 

R.O. - Mais de 20 anos depois da fundação da Blue Tree Hotels, quais dificuldades e desafios as mulheres ainda encontram?

C.A. - As mulheres ainda têm pouco tempo no mercado de trabalho comparado aos homens e, consequentemente, são ainda poucas as mulheres que chegaram ao topo do mercado em cargos de presidentes e de conselhos, apesar de serem competentes e altamente preparadas. Precisamos de mais executivas em altos cargos. Segundo os estudos do World Economic Forum, empresas com presidentes mulheres têm alcançado excelentes e melhores resultados financeiros. Portanto, o desafio é aumentar com velocidade o número de mulheres nos cargos de liderança. É uma tarefa possível, pois o jeito feminino de administrar está alinhado com as tendências da administração moderna, que foca nas pessoas para alcançar resultados financeiros, ao mesmo tempo em que busca o bem-estar de todos. Acredito que as mulheres, em geral, têm familiaridade com as emoções de forma espontânea, natural e sem complicações, assim como valores. Por isso gostam de temas como a emoção, a alma, a ética, a igualdade, os valores e o propósito.

 

R.O. - Quais características devem ter as mulheres que querem empreender no Brasil?

C.A. - Sejam mulheres ou homens, devem conhecer o negócio que desejam explorar, fazer plano de negócio, estudo de viabilidade, buscar pessoas que compartilham os mesmos valores e objetivos e que sejam parceiros de verdade – sejam colaboradores, terceiros, fornecedores ou clientes. Geralmente, os empreendedores são arrojados e corajosos, são aqueles que não gostam de sentar e lamentar os problemas. Os empreendedores vão à luta de um jeito ou de outro! São pessoas que enxergam soluções e oportunidades e não apenas problemas nas dificuldades. Tem gente que desiste no meio do caminho devido às dificuldades, que fazem parte! Não há conquista sem suor, trabalho, persistência e alegrias. É um ciclo: num dia, a alegria; no outro, a frustração. Altos e baixos todo o tempo. Gosto de dizer que, no mundo, a única realidade é a mudança constante. Um novo negócio nasce do olhar e da perspectiva de pessoas inconformadas com o presente, que colaboram para criar um mundo novo. O computador, a internet e os novos sistemas que brotam como plantas no jardim são ótimos exemplos, nascem como propostas inimagináveis até o seu surgimento. 

 

R.O. - O mundo está com os olhos voltados para a luta pelo empoderamento feminino. Como você observa essa batalha?

C.A - Não diria que é uma luta, mas sim uma conscientização de que o mundo é formado por homens e mulheres com capacidades e habilidades iguais. Na maioria dos casos, as mulheres são diferentes em estilo e na forma de fazer as coisas, mas o potencial e a capacidade são iguais. E esta conscientização não é feita somente por mulheres. Muitos homens ajudam no empoderamento das mulheres, participando de grupos como o He for She, incentivando e colaborando com os caminhos que devem ser trabalhados para dar velocidade a mais mulheres no mercado de trabalho e em altos postos de liderança. Da mesma forma, a igualdade racial e a diversidade são movimentos trabalhados nas empresas e na sociedade, colocando foco, porque as pessoas e a sociedade têm dificuldade de dar a devida importância ao tema, pela correria do dia a dia e outras prioridades. O mundo precisa funcionar inteiro, incluindo o empoderamento da mulher, na velocidade do mundo digital.

 

R.O. - Com toda a sua experiência de vida, qual é o maior aprendizado que carrega e que gostaria de compartilhar com as mulheres?

C.A. - Gosto muito de uma frase do educador alemão Kurt Hahn, que diz: “Somos melhores do que pensamos. Quando descobrimos isso, nunca mais continuamos os mesmos”. Quando as mulheres se empoderarem e sentirem que cada uma delas pode tornar o Brasil um país melhor, mais justo, mais brilhante e importante para os brasileiros e para o mundo, o entusiasmo que nasce dentro delas vai fazê-las pessoas felizes pelo protagonismo e pelo tamanho das contribuições de que são capazes.